Li pela primeira vez o Manifesto do Surrealismo, do André Breton, faz uns vinte anos. Posso dizer que mudou a minha vida.
Sempre gostei de escrever. Cometi crônicas e poesias escolares, publiquei algumas coisas no jornal “A Lyra”, lá em Resende, e cheguei a tentar um romance-catástrofe, bem ao estilo dos anos 70. O tema era uma catástrofe e a realização idem, mas, pelo menos, estávamos nos anos 70 e eu estava na onda. Escrevi letras para minhas próprias canções e continuei insistindo na poesia, mas me sentia sempre meio travado, até que li o Manifesto.
Acho que é leitura obrigatória para quem tem pretensões literárias. Não que todos tenham que rezar pela cartilha do Breton, mas praticar a “arte mágica surrealista” é uma experiência importante para o aspirante a escritor “soltar a mão”:
Mande trazer com que escrever, quando já estiver colocado no lugar mais confortável possível para concentração do seu espírito sobre si mesmo. Ponha-se no estado mais passivo ou receptivo, dos talentos de todos os outros .... Escreva depressa, sem assunto preconcebido, bastante depressa para não reprimir, e para fugir à tentação de se reler. A primeira frase vem por si, tanto é verdade que a cada segundo há uma frase estranha ao nosso pensamento consciente pedindo para ser exteriorizada. ... Continue enquanto lhe apraz. ...
O resumo está aí: escrever o que lhe vier à cabeça, sem crítica, sem reflexão, sem um plano. Confiar no murmúrio incessante da mente, deixar o rio fluir e só depois conferir o que ficou na rede. Vamos experimentar:
Peixes dourados iluminam o solo da represa enquanto o café dos tubarões esfria nas mesetas do Novo México. Ajustemos a sintaxe, mas apenas se os carros pararem de buzinar. É, minha mãe me deu educação, mas isso não é coisa em que se possa acreditar sem antes pensarmos no fogo que queima a ponta dos meus dedos nem no cintilar das telas dos computadores no escuro dos estúdios. A noite cai. Quase. A noite se deita devagar como uma virgem, temerosa. Ela sabe o que a espera.
Psss... que droga. Faz tempo que não faço isso. Mas gostei do final:
A noite cai.
Quase.
A noite se deita devagar como uma virgem, temerosa.
Ela sabe o que a espera.
A imagem é legal. Editando um pouquinho, o texto pode ficar melhor.
O Mário de Andrade, num poema, descreve o processo dizendo que a inspiração é fugaz, por isso devemos deixar que ela corra, tropece, caia e se fira. A Arte estaria em podar o poema das “repetições fastientas, sentimentalismos românticos, de pormenores inúteis ou inexpressivos”. (São Google me socorreu: está no “Prefácio Interessantíssimo” do livro “Paulicéia Desvairada”)
A brincadeira pode ser divertida. Experimentem.
Quem quiser ler o manifesto inteiro, pode encontar em www.culturabrasil.org/breton.htm.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Possuídos pelos hábitos
Coisa importante que aprendi essa semana: nós pensamos que possuímos hábitos, mas, muitas vezes, são os hábitos que nos possuem. Não vou dizer que aprendi isso do jeito difícil, porque, na verdade, foi até bem diverdito. Aprendi na prática, exercitando NÃO fazer algumas das coisas que faço habitualmente, automaticamente. Aliás, esse é o segredo da brincadeira: pensar nas coisas antes de fazê-las. Privando-nos propositalmente de alguns hábitos podemos tanto sentir a sua força quanto descobrir alternativas mais apropriadas para as necessidades que nos levaram a adquirir esses mesmos hábitos.
Passei a última sexta, por exemplo, sem tomar nem café nem coca-cola, dois vícios antigos. Foi duro. A cafeína fez falta. Fiquei meio sonolento algumas vezes durante o dia, inclusive durante o sermão da missa de formatura da qual participamos. Mas redescobri o sabor do Toddy, hehe. Deveria ter dormido melhor à noite, devido à falta da cafeína, mas não me lembro direito como foi. Devia ter escrito essas notas logo depois da experiência.
Mais difícil foi passar um dia sem o computador, coisa que me propus na terça-feira. Na verdade, foi impossível. Muito do meu trabalho depende do computador. Faltavam algumas partituras para o coral e a orquestra, e o único jeito foi ligar o computador e mandá-las por email para a mecanografia. Mas consegui resistir à tentação de usá-lo para fins pessoais. Dureza. Fiquei sem ler meus colunistas favoritos, sem escolher nem uma musiquinha para baixar... Coisa raríssima.
Também me obriguei a ficar escrevendo por 15 minutos. O resultado é o primeiro texto desse diário. Como vocês podem ver, gostei da experiência. Descobri uma tremenda ferramenta de auxílio à reflexão.
Conclusão: experimentem vocês também fugir de um hábito todo dia. O mundo fica mais interessante.
13/01/2008
Passei a última sexta, por exemplo, sem tomar nem café nem coca-cola, dois vícios antigos. Foi duro. A cafeína fez falta. Fiquei meio sonolento algumas vezes durante o dia, inclusive durante o sermão da missa de formatura da qual participamos. Mas redescobri o sabor do Toddy, hehe. Deveria ter dormido melhor à noite, devido à falta da cafeína, mas não me lembro direito como foi. Devia ter escrito essas notas logo depois da experiência.
Mais difícil foi passar um dia sem o computador, coisa que me propus na terça-feira. Na verdade, foi impossível. Muito do meu trabalho depende do computador. Faltavam algumas partituras para o coral e a orquestra, e o único jeito foi ligar o computador e mandá-las por email para a mecanografia. Mas consegui resistir à tentação de usá-lo para fins pessoais. Dureza. Fiquei sem ler meus colunistas favoritos, sem escolher nem uma musiquinha para baixar... Coisa raríssima.
Também me obriguei a ficar escrevendo por 15 minutos. O resultado é o primeiro texto desse diário. Como vocês podem ver, gostei da experiência. Descobri uma tremenda ferramenta de auxílio à reflexão.
Conclusão: experimentem vocês também fugir de um hábito todo dia. O mundo fica mais interessante.
13/01/2008
Começo de um blog
Este pode ser o começo de um blog.
É uma coisa que eu gostaria de fazer: escrever por, sei lá, uns 15 minutos por dia para registrar o que se passou. Fazer o meu diário. Descrever os acontecimentos, por modestos que sejam, e registrar meus sonhos, por mais exagerados que possam soar.
Acho que gostaria de falar do meu trabalho. Comentar o que se passou durante os ensaios do coral e da orquestra, falar das surpresas boas e ruins. Deixar que as pessoas saibam o que penso delas, para o bem ou para o mal. Acho que poderia ajudá-las assim. Embora isso possa soar arrogante da minha parte, creio que não é tanto, afinal eu já tenho muito mais “estrada” do que essa molecada que trabalha comigo, tanto de música quanto de vida mesmo. Com certeza posso ajudá-los a serem melhores músicos. Talvez possa ajudá-los a serem melhores pessoas.
Será que falarei da minha vida pessoal? Improvável. Algumas dimensões da vida precisam ser mantidas, não em segredo, mas na intimidade. Talvez eu possa contar alguma historinha de pai e marido orgulhoso, mas não muito mais que isso. Aí já vai uma lição, aliás: nem tudo é para ser contado. Algumas coisas pertencem a você, sua mulher, seus filhos, àqueles pouquíssimos Amigos que merecem um A maiúsculo.
Vale a pena tentar.
Petrópolis, 09/01/2008
É uma coisa que eu gostaria de fazer: escrever por, sei lá, uns 15 minutos por dia para registrar o que se passou. Fazer o meu diário. Descrever os acontecimentos, por modestos que sejam, e registrar meus sonhos, por mais exagerados que possam soar.
Acho que gostaria de falar do meu trabalho. Comentar o que se passou durante os ensaios do coral e da orquestra, falar das surpresas boas e ruins. Deixar que as pessoas saibam o que penso delas, para o bem ou para o mal. Acho que poderia ajudá-las assim. Embora isso possa soar arrogante da minha parte, creio que não é tanto, afinal eu já tenho muito mais “estrada” do que essa molecada que trabalha comigo, tanto de música quanto de vida mesmo. Com certeza posso ajudá-los a serem melhores músicos. Talvez possa ajudá-los a serem melhores pessoas.
Será que falarei da minha vida pessoal? Improvável. Algumas dimensões da vida precisam ser mantidas, não em segredo, mas na intimidade. Talvez eu possa contar alguma historinha de pai e marido orgulhoso, mas não muito mais que isso. Aí já vai uma lição, aliás: nem tudo é para ser contado. Algumas coisas pertencem a você, sua mulher, seus filhos, àqueles pouquíssimos Amigos que merecem um A maiúsculo.
Vale a pena tentar.
Petrópolis, 09/01/2008
Assinar:
Postagens (Atom)